domingo, 24 de agosto de 2008

Vermelho no branco

Por Emanuela Pegoraro

O que eu faço para abortar? Digita a vergonhosa pergunta na Internet e verás a quantidade de moças impuras querendo saber a resposta. As infantes pedem desesparadamente, com u jeitu lindu di adolexenti iscreve, por chás milagrosos, número correto de pílulas anticoncepcionas que devem tomar para abortar (trex ou quatru?), ou a técnica da bucha secreta dos confins da Amazônia.

O que é mais vergonhoso? Engravidar numa época em que as diversas técnicas anticoncepcionais desfilam pelas bocas de nossos médicos, mães e apresentadores de TV? Ou varar semanas em claro, em busca de um método primitivo, baseado na foice e enxada, que conta também com cordas, animais peçonhentos e outras ofenças atrozes ao nome da técnica e da ciência, simplesmente porque no Brasil o aborto limpo, seguro e simples não é permitido?

Na opinião de Sara , ambos os casos são vergonhosos. Tanto que a garota tomou pílula à espera da visita do namorado. Ela não seria burra de dar tanta chance ao azar, dar para o namorado sem contar com nenhum método anticoncepcional. Mas garotas são garotas e, mesmo na flor de seus 23 anos de experiência, o maravilhoso sexo sem camisinha por semanas a fio deixa sempre a tão conhecida pulguinha atrás na orelha. É culpa da mãe, que lhe ensinuou ao longo da infância que sexo é feio e pecado. "Eu transei demais, demais, eu mereço estar grávida", pensava a pobre Sara.

E como adolescente de internet, Sara passou dias planejando uma viagem à Suíça, ou à Conchinchina, onde pudesse tomar um comprimidinho corriqueiro e sossegado, e acabar com a criatura, se ela deveras fosse. Até que Sara acordou numa bela manhã de sol, e lá estava, tudo resolvido, vermelho no branco. Confie na pílula, querida Sara.

Naquela manhã rubra e alegre, Sara caminhou radiante ao trabalho. A primeira tarefa foi a mensagem, que enviou para o outro lado do continente: "Você não vai ser papai tão cedo". Duas horas depois, a resposta na caixa de entrada: "Eu te amo. E sua menstruação também."

Dia dos casais chatos

Por Juliana Wecki

Semana passada foi o dia dos namorados. O que mais se via na rua eram casaizinhos apaixonados caminhando de mãos dadas, e meninas levando seus recém recebidos buquês de flores. Parece que as pessoas tomam banho de mel no dia 12 de junho e vão ver seus amados. “Nhonhozinho” para cá, “donzdonzinho” para lá... É uma melação!

Agora, sejamos sinceros, alguém aguenta isso? Me chamem de coração gelado, ou qualquer coisa parecida, mas não consigo gostar de ver demonstrações de carinho por aí. Quer ficar abraçado na namorada, eu respeito. Mas poupe meus ouvidos de ouvir apelidos mela-cueca, ou meus olhos de ficar assistindo a “beijos-desentupidor”.

Será que é tão difícil de perceber que isso é muito chato? Quem nunca passou pela situação de estar na fila do cinema e ter dois pombinhos por perto, se chamando por apelidinhos e sem conseguir se desgrudar. Ou então, estar entre um grupo de amigos e ter aquele casal que parece estar em um universo paralelo: ela olha para ele, ele não tira os olhos dela e eles ficam assim, em estado de contemplação. Ora se beijam, estão sempre grudados, e o principal: não compartilham da conversa do grupo.

Há um tempo atrás, li um texto em que a autora pedia que adultos também dessem beijos apaixonados na rua, prática tão comum entre adolescentes. Meu apelo é exatamente o contrário: deixem a intimidade para a intimidade.Ninguém precisa saber da vida amorosa de ninguém. Ninguém precisa ver a intimidade de ninguém.

Isso não não é um apelo para que os casais de namorados passem a ser frios um com o outro. Demonstrem o carinho com palavras, com gentileza. Amem seus namorados. Tratem da melhor maneira possível. Mas respeitem os outros. Ninguém precisa ficar provando seu amor para toda a torcida do Flamengo. Deixem as “atitudes práticas” para as quatro paredes.

Quem tem medo de escuro?

Por Paulo Azevedo Jr.

Bicho-papão, lobisomem, altura e granada. Fuzil, avião, escuro e seqüestro. As coisas como eram, e as coisas como são. Os velhos, os jovens e as crianças. Não leitor, não enlouqueci. Espero que em breve tudo isso faça sentido.

Estava almoçando em uma lanchonete na zona sul do Rio, quando comecei a ouvir a conversa de uma turma de senhores que estava na mesa ao lado. Com aquele típico sotaque carioca, cheio de "esses" que parecem xis, e "erres" carregados, eles falavam sobre os medos de antigamente e os de agora.

Aos poucos aquele papo despretensioso começou a chamar minha atenção e quando vi já estava quase me metendo na conversa deles. Meus amigos falavam sobre alguma coisa que tinha ocorrido na noite anterior, mas no momento o que me interessava era a conversa dos velhos. Medo era o assunto deles.

  • Quando eu era criança, a gente tinha medo de altura, de escuro, de bicho-papão. Hoje em dia, a meninada tem medo de granada, de fuzil, de metralhadora. Nesses quarenta anos a vida mudou muito, e pra pior, eu acho.

  • É verdade, outro dia meu netinho contou que o colega dele não queria ir para a aula porque o primo tinha sido seqüestrado e ele estava com medo de também ser.

Fiquei pensando sobre aquilo. Não que eu seja uma pessoa medrosa, mas também estou longe de ser um valentão. Claro que na infância eu tinha meus medos, alguns frutos da minha imaginação, outros da realidade que me cercava. Em algumas peças da casa, eu simplesmente não ia durante a noite. O motivo não sei, mas só Deus sabe o quanto a despensa e a lavanderia, que ficavam tão longe do meu quarto, me assustavam. Era como se fosse um universo paralelo, um mundo de trevas e perigos iminentes. Estrada também era uma coisa que me deixava tenso, mas isso tinha lá seus motivos. Em outra crônica explico isso melhor.

Hoje em dia essas fobias passaram. No lugar delas vieram outras, mas com as quais eu tenho de lidar, pois, de outro modo, não sairia mais de casa. Aos poucos, coisas como assaltos, atropelamentos e seqüestros passam a ser tão rotineiras que deixam de nos chocar. Não que isso seja bom, mas é a realidade, e como meu espírito não é panfletário, e nem tampouco revolucionário, acabo me conformando com o mundo que me cerca.

Mas voltando ao papo dos velhos, achei o ponto deles interessante. Antigamente, os medos dos pequenos e dos adultos eram diferentes. Enquanto os primeiros eram fruto da imaginação infantil e do folclore popular, os segundos vinham da vida cotidiana. Atualmente, os temores não têm mais idade. Parece que no mundo moderno criança e adulto estão à mercê dos mesmos medos. Daqui a pouco, o pai vai pedir para dormir com o filho à noite.

Sobre o inverno

Por Caroline Borges


Eu já cansei de reclamar do inverno. Não adianta, ele não muda. Todo ano vem para deixar a minha vida mais difícil e, ultimamente, tem vindo com mais força. De uns tempos pra cá, chega a invadir a primavera permanecendo até o setembro. Eu não gosto de frio e sofro muito durante o inverno. Levantar da cama vira uma batalha das mais complicadas e, normalmente, a cama vence. Até o banho que é uma atividade prazerosa, nessa estação se transforma em uma tarefa que exige força e coragem. As plantas sofrem, os animais sofrem, as crianças sofrem, os idosos sofrem, definitivamente a vida é mais feliz no verão. Vocês já se deram conta do sacrifício que é andar pelas ruas da cidade nas manhãs de frio com aquele vento que parece cortar a espinha? Nossa, poucas coisas são piores.

Eu até admito que algumas coisas ficam mais atraentes durante o inverno. Passar o fim de semana inteiro embaixo do edredom, vendo televisão, com uma panela de negrinho, por exemplo. Fazer um passeio até a Serra Gaúcha e sonhar que está na Europa também. Ler numa noite chuvosa ou ainda dormir a tarde inteira de domingo perto da lareira. E as coisas param por aí. Muito pouco comparado aos passeios, à piscina, ao bronzeado, às festas, à alegria, à beleza das paisagens, típica do verão.

Sobrefutebol e política no Brasil

Por Cristiano Muniz & Régis Machado

Ontem, após o empate com a Argentina, em Belo Horizonte, Dunga afirmou não estar preocupado em perder o emprego, pois já teria "a vida resolvida". A torcida, porém, queria a sua cabeça. "Adeus, Dunga", gritavam os espectadores, descontentes com o rendimento da Seleção. O que é perfeitamente compreensível num país em que técnicos são demitidos com uma facilidade espantosa. São raros os treinadores de clubes brasileiros que permanecem longos períodos em seu cargo.

Se assim fosse também na política, as coisas certamente seriam diferentes. Se os eleitores gaúchos fizessem como os torcedores, que clamam pela demissão de técnicos incompetentes, haveria maior mobilização popular pelo impeachment da governadora Yeda, por exemplo. Mas, em política, as regras são diferentes: é muito mais difícil para o cidadão comum expressar seu descontentamento com o poder público. É necessário reunir grandes contingentes de pessoas, realizar manifestações, protestos, atos públicos; apenas grupos organizados como sindicatos e diretórios estudantis têm essa capacidade – um tanto restrita, é verdade – de mobilização.

Por outro lado, no estádio, o torcedor se sente livre para expressar da maneira que quiser sua desaprovação com o comandante da equipe; cobra providências, sugere substituições, critica o técnico: é assim que a torcida age quando o desempenho do time não é o esperado. Na área política, o máximo que se vê são atos isolados, com pequena participação popular. Não existe a consciência, por parte das pessoas, de que devem fiscalizar e cobrar também seus representantes eleitos. Trata-se, portanto, de algo muito mais sério que futebol: afinal, a decisões tomadas no campo político exercem uma influência muito maior na vida das pessoas do que a revolta com o mau resultado no jogo da Seleção.

Quero escrever para a Playboy

Por Mônia Canalli

Eventos sociais geralmente são um lixo. Onde há 'high society' há a imprensa. E imprensa da pior qualidade, eu diria. Estive no lançamento do documentário da vida de Dona Eva Sopher e sua dedicação ao Thetro São Pedro. À trabalho, obviamente. Nunca imaginei que uma simples incursão por este mundo me faria questionar tantas coisas e, por consequëncia nausear-me pelo resto da noite. Entre as falsas risadinhas das madames empetecadas e os discursinhos políticos dos futuros candidatos, estava lá um jornalista. Ai, que dor de estômago, um jornalista. Câmera ligada, bloquinho na mão. E uma idéia na cabeça? Definitivamente não. O colunismo social é nojento, serve apenas para enaltecer o que uns fingem ter: prestígio.

Tentava adivinhar quantos aluguéis ou contas de luz eu poderia pagar com cada par de brinco do salão. Mas a atividade jornalística não pode parar, e sem estas pessoas este mundo não sobrevive. Os que não estavam trabalhando estavam perambulando de roda em roda tentando ganhar visibilidade, distribuir 'olás' bajuladores. Senti medo, muito medo de ter que me submeter a isso tudo. Mas quando me meto nestas situações sempre tenho um respiro de alívio. E o respiro, neste caso, foi a Dona Eva. Sempre simpática, a velhinha que ontem completava 85 anos era o exemplo da resistência e da simplicidade em forma de mulher. Um referencial de cultura no Brasil, homenageada por toda aquela gente. Uma judia refugiada de guerra, que através de sua batalha pessoal, inseriu Porto Alegre no circuto da arte mundial.

Esta minha incursão pelo mundo mágico dos bajulados e bajuladores me fez lembrar uma vontade surgida há um tempo atrás.Ridícula, que veio do nada, mas que cada vez toma mais força. Surgiu depois de ler a célebre frase 'Quanta abundância' atrelada à foto da mulher-melancia, capa da Playboy deste mês. Dei risada, e pensei como seria divertido escrever para a revista. Num país que ovaciona o sexo, não seria má idéia. Ao menos, não seria tão hipócrita.

É o que é, está ali e pronto.

Imigrar é crime e dá cadeia, diz Estrasburgo

Por Pedro Argenti

Imigração não é nenhuma novidade. Nada que tenha aparecido na semana passada, ameaçadoramente, e tenha gerado o pavor dos legisladores de Estrasburgo que aprovaram a deportação a cabresto até das criancinhas ilegais. A imigração é coisa antiga. Imagine você que os primeiros japoneses atracaram no Brasil já faz cem anos. Os portugueses, quinhentos e oito. E antes de todos eles, o que faziam mesmo os hebreus no Egito ou os jônios em Tróia? Note que a Itália de hoje era antes helênica, era Magna Grécia. Note que, dizem alguns cientistas, os homens das Américas chegaram da Rússia pelo Estreito de Bering. Perceba a quantidade de ciganos que existem pelo mundo. Não, definitivamente não foi na semana passada que tudo isso começou.

Meu bisavô podia dizer o que quisesse sobre suas motivações para deixar Verona a caminho do Rio Grande do Sul. “A vida era muito difícil, buscávamos sobrevivência, melhores condições”. Até certa idade eu acreditava, todavia hoje sei que nada resumiu-se a isso. Imigrar é coisa do homem e sua natureza. Vem do desejo, da ânsia de liberdade. A promessa de Canaã não vem de Deus ou do dólar, ela vem do coração. A imigração é tão antiga quanto a expectativa de um lugar redento onde seja possível uma vida plena. Tem a ver com aquilo que queremos do mundo.

Tão somente a pobreza material não leva ninguém a tomar os rumos que os lusos migrantes chamavam de além-mar. É a miséria do espírito, somada com a ânsia do homem pela satisfação, que movia as caravelas e enchia, como bem disse Pessoa, os mares de sal. Até hoje é assim. É nossa desgraça que nos leva embora. Os psicólogos diriam que não há nada de errado, diriam até, quem sabe, que permanecer na pátria revelaria qualquer traço de um complexo de Édipo. Deixar a terra é revoltar-se com o berço, é tentar mudar aquilo a que o destino impávido nos submeteu. Imigrar é renovar, por meio de catarse, é crescer. E isso agora é mau.

O homem nômade foi feito criminoso. Os titãs burocráticos fizeram erguerem-se fronteiras que não estão lá. O desejo tornou-se contravenção e nações inteiras tornaram-se prisões de seus filhos. Estrasburgo surpreende. O continente de onde partiram tantos, fossem fugidos de Napoleão ou Franco, Mussolini ou Hitler, da miséria ou do frio, da tristeza ou do marasmo, hoje se faz hermético. Isola-se logo agora, na era global das relações. Desilude ver que a mesma terra dos direitos universais hoje está a bani-los. Quando, diabos, iremos parar de fazer leis que proíbem dos homens sua própria humanidade?